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Uma árvore que se perde pode nunca realmente ser substituída

há 13 minutos
19 min de leitura
Embaixadores e moradores a abraçar o tronco de uma Gigante Verde
Se não a consegues abraçar, é uma Gigante Verde.

Há árvores que não conseguimos abraçar. O carvalho à beira do caminho, o plátano que faz sombra a uma praça inteira, o sobreiro no meio do campo. Chamamos-lhes Gigantes Verdes: árvores com 150 cm ou mais de perímetro do tronco, medido a 1,30 metros do solo. Quando uma delas é abatida, a resposta é quase sempre a mesma: «vão plantar outras».


Plantar é indispensável. É assim que nascem as Gigantes Verdes do futuro. Mas não repõe de imediato o que se perdeu. Neste artigo, apresentamos dados recolhidos em Portugal para explicar quanto tempo demora a substituir uma árvore grande, quanto vale, quantas estamos a perder e porquê. No fim, dizemos como podes ajudar

Em resumo

  • Uma árvore nova leva 40 a 100 anos, 60 em média, a tornar-se uma Gigante Verde, com 150 cm de perímetro do tronco.

  • Face a uma árvore pequena, uma Gigante Verde retira 15 vezes mais carbono por ano, guarda 128 vezes mais carbono na sua madeira, retém 98 vezes mais água da chuva no solo e tem três vezes mais tipos de microhabitat.

  • Aos 150 cm, ainda não deu nem metade do que tem para dar: os benefícios continuam a crescer durante décadas.

  • Se for abatida, a árvore plantada no seu lugar leva 120 a 160 anos a igualar o carbono que retirava por ano e a água que retinha, e 200 a 230 anos a igualar o carbono guardado. Nos microhabitats, nunca a alcança.

  • Em Lousada, onde as acompanhamos desde 2018, já desapareceu uma em cada sete, quase sempre por decisão humana.

  • Perdemos perto de uma em cada 50 por ano, cerca de 2%. A investigação aponta 0,5% como o máximo para uma paisagem as manter.

  • A maioria não tem proteção legal própria. O que mais as protege é serem conhecidas antes de alguém decidir abatê-las.


O que é, afinal, uma árvore grande?


No projeto Gigantes Verdes® usamos uma medida que qualquer pessoa repete com uma fita métrica: o perímetro à altura do peito, ou seja, a volta do tronco medida a 1,30 m do solo. Com 150 cm ou mais, a árvore é uma Gigante Verde. Pode ser de qualquer espécie e estar num quintal, numa rua, num campo agrícola ou numa mata. Para comparar árvores de tamanhos diferentes, usamos três classes: pequenas (menos de 31 cm de perímetro, menos de 10 cm de diâmetro), intermédias (31 a 149 cm) e Gigantes Verdes (150 cm ou mais). Nas análises, separamos ainda as Gigantes Verdes com 300 cm ou mais, perto de um metro de diâmetro, para mostrar o que as maiores acrescentam.


Das mais de 35.000 árvores que a rede mapeou desde janeiro de 2025, pelo menos 15.000 têm o perímetro medido pelos Embaixadores. Quase metade tem entre 150 e 199 cm e 9,3% têm 350 cm ou mais. Destas, cerca de 1.400 já têm dimensão para serem classificadas como Arvoredo de Interesse Público, a classificação nacional que protege árvores notáveis, e 4.400 passam os 250 cm, o limiar do Interesse Municipal em concelhos como Matosinhos, Coimbra e Arouca.


Árvores medidas pela rede desde janeiro de 2025, por classe de perímetro do tronco.
Árvores medidas pela rede desde janeiro de 2025, por classe de perímetro do tronco.

Quanto vale uma árvore grande, comparada com uma pequena?


Muito mais do que o tamanho faz pensar, porque os benefícios crescem mais depressa do que o tronco. Para os medir, juntámos cerca de 65.000 árvores: 61.000 dos inventários de arvoredo urbano que a VERDE fez em diversos concelhos, e cerca de 4.000 Gigantes Verdes de Lousada. Para cada árvore, o i-Tree, um conjunto de modelos do Serviço Florestal dos Estados Unidos, estima o carbono guardado, o carbono retirado da atmosfera em cada ano e a água da chuva que deixa de escorrer pelo chão. Os valores são estimativas e servem como ordem de grandeza para Portugal; o carbono conta-se em dióxido de carbono equivalente (CO₂e), a unidade usada nos inventários de emissões.


Os resultados são claros. Uma árvore pequena guarda, em média, 0,03 toneladas de CO₂e, retira 9,7 kg por ano e retém 7,7 litros de água da chuva. Uma Gigante Verde guarda 4,03 toneladas, retira 144 kg por ano e retém 754 litros. Ou seja, comparada com uma árvore pequena, uma Gigante Verde guarda 128 vezes mais carbono no tronco, nos ramos e nas raízes, retira da atmosfera 15 vezes mais carbono por ano, retém 98 vezes mais água da chuva, que deixa de correr para as sarjetas e as linhas de água, e tem três vezes mais tipos de microhabitat, como cavidades, fendas, casca solta e ramos mortos. Nas Gigantes Verdes com 300 cm ou mais, a diferença é ainda maior: 14,15 toneladas guardadas, 169 kg retirados por ano, 1.306 litros de água retidos e 6,1 tipos de microhabitat. Face a uma árvore pequena, são 451 vezes mais carbono guardado, 17 vezes mais carbono retirado por ano, 170 vezes mais água retida e quatro vezes mais tipos de microhabitat.


Tabela com ícones do valor de uma Gigante Verde face a uma árvore pequena: 15 vezes mais carbono sequestrado, 128 vezes mais carbono armazenado, 98 vezes mais água retida, 3 vezes mais tipos de microhabitat e até 6 °C de conforto térmico.
Uma Gigante Verde comparada com uma árvore pequena, em carbono, água, microhabitats e conforto térmico.

Dito de outra forma: num ano, uma Gigante Verde retira da atmosfera o que uma árvore pequena retira em 15. A comparação usa médias anuais de árvores de tamanhos diferentes e não descreve os primeiros 15 anos de uma árvore plantada hoje, mas dá a medida do que está em causa. O efeito vê-se também no total: as árvores de Lousada são só 6,2% da amostra, mas, como quase todas são Gigantes Verdes, fazem subir 51% o carbono guardado no conjunto.


Ícone de uma árvore grande igual a quinze ícones de árvores pequenas: num ano, uma Gigante Verde sequestra o que uma árvore pequena sequestra em 15
A comparação usa médias anuais de árvores de tamanhos diferentes e não descreve os primeiros 15 anos de uma árvore plantada hoje.

Não somos os únicos a chegar a esta conclusão. Em 48 parcelas florestais de vários continentes, as árvores de maior diâmetro, apenas 1% do total, guardam metade da biomassa acima do solo (Lutz et al., 2018). E num estudo com 403 espécies, quanto maior a árvore, mais carbono acumulava por ano, ao ponto de uma árvore grande acrescentar num ano o carbono de uma árvore média inteira (Stephenson et al., 2014).


Há ainda o que estes modelos não medem: a sombra. Uma copa grande arrefece o ar à volta. Em Lisboa, as árvores de rua baixaram até 6 °C (entre 3,2 e 6,3 °C) o índice de conforto térmico, que mede o calor que o corpo sente (Silva et al., 2025). Em 93 cidades europeias, um terço das 6.700 mortes atribuídas às ilhas de calor urbanas em 2015 teria sido evitado com 30% de copa de árvores (Iungman et al., 2023). Em Portugal, só a onda de calor de julho de 2022 causou 1.063 mortes acima do esperado (Direção-Geral da Saúde, via Postal). E as árvores pagam facilmente o que custam a manter: as 41.247 árvores de rua de Lisboa devolviam em benefícios cerca de 4,5 vezes o que custavam (4,48 dólares por cada dólar gasto), incluindo 48 dólares por árvore e por ano em água da chuva que não chegava aos esgotos (Soares et al., 2011).


Casa para fungos, insetos, aves e morcegos


Os microhabitats são pequenas estruturas da árvore que servem de abrigo, ninho ou alimento: a cavidade aberta por um pica-pau, uma fenda no tronco, casca solta, um ramo morto na copa. Deles dependem fungos, líquenes, insetos, aves e morcegos. Uma árvore pequena tem em média 1,5 tipos de microhabitat, uma Gigante Verde 4,8 e uma Gigante Verde com 300 cm ou mais 6,1.


Muitos destes abrigos levam gerações a formar-se. As cavidades que a fauna consegue usar podem demorar mais de 120 anos (Lindenmayer et al., 2012), e 20% a 40% dos organismos das florestas europeias dependem de madeira morta em alguma fase da vida (Mansuy et al., 2024). O diâmetro do tronco é o fator mais forte: quanto mais grossa a árvore, mais tipos de abrigo tem e mais depressa surgem. As folhosas, como carvalhos e castanheiros, acumulam mais do que as resinosas, e as árvores velhas, em declínio ou mortas de pé são as mais ricas. Tempestades e quedas de ramos abrem feridas na casca a fungos e insetos, os fungos apodrecem a madeira e os pica-paus escavam-na até formar cavidades. Onde não há abates há mais de 100 anos, tudo isto acontece mais depressa (Larrieu et al., 2018; Asbeck et al., 2021; Courbaud et al., 2022). Junto a um caminho, um ramo morto pode ter de ser cortado. No meio de um bosque, é casa para muitas espécies. Os Embaixadores encontraram ramos mortos na copa em 58% das Gigantes Verdes que registaram.


E os benefícios não param quando a árvore chega aos 150 cm. Num modelo ilustrativo da VERDE para uma folhosa saudável com uma vida de 300 anos, construído com White (1998), Locosselli et al. (2020), os dados do i-Tree e os inventários da VERDE, uma árvore que acaba de chegar aos 150 cm retira por ano perto de metade do carbono que chegará a retirar no seu máximo e retém perto de 60% da água que chegará a reter. O carbono guardado ainda vai no início, abaixo de um décimo do máximo, e continua a acumular até ao fim da vida. Os tipos de microhabitat continuam a aumentar mesmo depois de a árvore morrer em pé. Uma Gigante Verde ainda não deu nem metade do que tem para dar.


Gráfico com quatro curvas (carbono sequestrado por ano, carbono armazenado, água da chuva retida e tipos de microhabitat) ao longo do perímetro do tronco de uma folhosa saudável, em %
Cada benefício ao longo da vida de uma folhosa saudável, em % do máximo que chega a dar. Aos 150 cm, quase todos ainda estão longe do topo. Modelo ilustrativo VERDE.

Quanto tempo demora a substituir uma árvore grande?


Mais do que uma vida humana. Para o saber, juntámos 19 inventários de arvoredo de 16 concelhos (dez feitos pela VERDE e nove publicados pelos municípios), com perto de 212.500 árvores medidas, o 6.º Inventário Florestal Nacional (IFN6), do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), e a base Gigantes Verdes. Nestas fontes, o perímetro do tronco cresce entre 1,5 e 3,8 cm por ano, com uma mediana de 2,5 cm. A esse ritmo, uma árvore jovem leva entre 40 e 100 anos, 60 em média, a chegar aos 150 cm de uma Gigante Verde, e 80 a 200 anos (120 em média) a chegar aos 300 cm. São médias de toda a vida: uma árvore jovem cresce devagar nos primeiros anos e acelera depois. E só lá chega se sobreviver, for bem cuidada e tiver espaço para crescer durante décadas. Em Lisboa, 13 das 29 árvores plantadas na Avenida Santos Dumont morreram (Time Out Lisboa).


Mas chegar aos 150 cm ainda não é repor a árvore perdida. Em Lousada, as árvores cortadas tinham um perímetro mediano de 192 cm, e uma árvore plantada hoje levaria 50 a 130 anos (75 em média) a chegar a esse tamanho. Entretanto, a abatida não teria parado. Mesmo a engrossar só 1 cm por ano, o ritmo que usamos para árvores já grandes, teria 270 cm 75 anos depois do corte, e 380 cm se mantivesse os 2,5 cm. Com a idade, uma árvore muito grande pode perder parte da copa e crescer mais devagar, mas não deixa de engrossar: árvores que perderam mais de metade da copa continuaram a crescer, a cerca de metade do ritmo (Reiter et al., 2025). Em carbono, a distância é ainda maior, porque quanto maior é a árvore, mais carbono acumula por ano (Stephenson et al., 2014).


A esse intervalo chamamos défice temporal: as décadas em que a sombra, o carbono, a água retida e o habitat deixam de existir naquele lugar. Muitas obras compensam um abate com uma árvore nova, como se valessem o mesmo. Pelas médias acima, no dia da plantação seriam precisas 15 árvores pequenas para igualar o carbono que uma Gigante Verde retira num ano e 128 para igualar o que já tem guardado. E nenhuma terá uma cavidade durante muitos anos.


Em benefícios, o défice é ainda maior. Num modelo ilustrativo da VERDE para uma folhosa saudável, com os ritmos de crescimento e de vida de White (1998) e Brienen et al. (2020), comparámos o que uma Gigante Verde de 192 cm continuaria a dar se ficasse de pé com o que dá a árvore plantada no seu lugar. A nova só chega ao nível da antiga ao fim de 120 a 150 anos no carbono retirado por ano, de 130 a 160 anos na água da chuva retida e de 200 a 230 anos no carbono guardado, e só chega lá porque, entretanto, a antiga também teria envelhecido. Nos tipos de microhabitat, nunca: a nova terá as primeiras cavidades daqui a mais de 120 anos, mas a antiga continuaria a ganhar abrigos até muito depois de morrer em pé. Tudo o que fica entre as duas curvas, durante mais de um século, perde-se. Corta-se em minutos, repõe-se em séculos.



Quatro gráficos com o título «Corta-se em minutos. Repõe-se em séculos.»: quando uma Gigante Verde de 192 cm é abatida e logo substituída, a nova só chega ao nível da antiga ao fim de 120 a 150 anos no carbono sequestrado por ano, 130 a 160 anos na água da chuva retida e 200 a 230 anos no carbono armazenado, e nunca nos tipos de microhabitat.
Corta-se em minutos, repõe-se em séculos: em cada benefício, o que temos (a antiga até ao corte, depois a nova), o que teríamos (a antiga, se não fosse cortada) e o que perdemos. Modelo ilustrativo VERDE.

A ecologia conhece também um limite para as perdas. Em paisagens agrícolas com árvores dispersas, as árvores maduras só se mantêm se a mortalidade anual ficar abaixo de 0,5%; com a gestão atual, desaparecem em 90 a 180 anos (Gibbons et al., 2008). Em Lousada, a perda observada é de 1,7% ao ano, mais de três vezes esse limiar, e a esse ritmo metade das árvores desaparece em 40 anos. Os sistemas estudados são diferentes, e a comparação serve só para dar a ordem de grandeza. Mas aponta no mesmo sentido: as árvores grandes perdem-se mais depressa do que se repõem. Nas ruas e jardins públicos há, em média, uma árvore e meia com 100 a 149 cm de perímetro a caminho de cada Gigante Verde. Em número, a reposição pode existir; em tamanho e no tempo de uma vida, não. Algumas espécies já nem em número se repõem: os plátanos, o género com mais Gigantes nas cidades, têm 0,73 árvores a caminho por cada Gigante. Nos terrenos privados e rurais, onde se perde três vezes mais, ninguém contou ainda essa reserva, e os carvalhais são jovens: no IFN6, 90% dos carvalhos em povoamento têm menos de 22,5 cm de diâmetro.


A lei também olha para o número de árvores e não para o seu tamanho. A Lei n.º 59/2021, que regula a gestão do arvoredo urbano, mede a área de copa e o carbono, e a reposição que prevê cumpre-se com perto de 30 árvores jovens por cada Gigante Verde abatida. Nenhum plano ou regulamento dá a alguém a tarefa de garantir árvores grandes daqui a 50 anos. Por tudo isto, plantar não chega para repor uma árvore grande: pode haver árvores novas, mas não a mesma árvore, nem a tempo.


Quantas árvores grandes estamos a perder em Portugal?


Perto de 2% por ano, ou uma em cada 50, quase sempre por decisão humana. A série mais longa é a de Lousada, onde começámos a mapear Gigantes Verdes em 2018 e voltámos às mesmas árvores ao longo dos anos. Isso permite medir quantas desaparecem e porquê, algo que quase nenhum inventário faz. Em Lousada, 1.145 das 8.223 Gigantes Verdes registadas já se perderam: 13,9% do total, uma em cada sete. Desde 2018, perdemos 1,7% por ano. No resto do país, onde a rede começou em 2025, a perda ronda 1,8% por ano. Estes valores têm margem de erro, porque nem todas as árvores foram revisitadas, e o mínimo seguro, contando só as perdas confirmadas no último ano, é de 0,5%. Em Cascais, os dados abertos do município mostram abates de 1,9% por ano nas árvores públicas classificadas como velhas, entre 2016 e 2025, o que sugere que a perda no espaço público pode ser maior do que os nossos registos indicam.


Sete ícones de árvore, um deles esbatido, a mostrar que uma em cada sete Gigantes Verdes de Lousada já se perdeu, e os motivos das perdas.
Perdas de Gigantes Verdes em Lousada desde 2018 e motivos dos abates entre 2017 e 2022. Base Gigantes Verdes (VERDE, 2026); PDD Carbono Biodiverso (VERDE, 2023), tabela 2.

Entre 2017 e 2022, quase nove em cada dez perdas em Lousada resultaram de uma decisão de quem gere a terra: 36% vieram de alterações do uso do solo (agricultura intensiva 21,8% e urbanização 14,4%), 32% da madeira e lenha e 20% de razões de segurança. Só 11% foram morte natural. Metade das árvores cortadas tinha mais de 192 cm de perímetro, e o corte atingiu árvores de todos os tamanhos por igual: cada classe perdeu entre 7,7% e 9,7%. Fora de Lousada, as árvores em terreno privado perdem-se três vezes mais do que as públicas (3,0% contra 0,9% no período do projeto). Entre as árvores vivas em que os Embaixadores avaliaram o risco, 39% já mostram alguma pressão, sobretudo podas anteriores (14%), estradas próximas (13%) e infraestruturas que sufocam a árvore (4%).


As tempestades e os incêndios somam-se a estas perdas. A depressão Kristin, a 28 de janeiro de 2026, derrubou entre 5 e 8 milhões de árvores só no concelho de Leiria, segundo a câmara municipal (Renascença), e o Santuário de Fátima perdeu mais de 500 árvores de médio e grande porte (Santuário de Fátima). Os incêndios de 2025 atingiram perto de 420 árvores registadas pela rede.


Porque é que as árvores grandes desaparecem?


Quase nunca por má vontade. Perante uma obra, uma mudança de cultura, uma venda de lenha ou o receio de uma queda, manter a árvore raramente aparece como opção. Quem decide sobre ela paga sozinho os custos e assume o risco, enquanto os benefícios são de todos e acumulam-se ao longo de décadas. Vemos três razões a repetir-se.


A primeira é o receio da queda. O risco existe e tem de ser gerido, mas é baixo. No Reino Unido morrem 5 a 6 pessoas por ano por queda de árvores ou ramos; junto a árvores muito frequentadas, o risco para cada pessoa é da ordem de 1 em 10 milhões, e a orientação oficial é gerir o risco caso a caso, sem abates generalizados (Health and Safety Executive, a autoridade britânica de saúde e segurança). Nos inventários que a VERDE fez em cinco concelhos, com 17.521 árvores avaliadas uma a uma, só 4,5% tiveram indicação de abate, muitas delas já mortas; em Viana do Castelo e Gondomar, mais de 83% não precisavam de qualquer intervenção. Ainda assim, sem avaliação técnica e sem histórico de inspeções, abater parece a forma mais segura de afastar a responsabilidade, e acidentes como a queda de um carvalho no Monte, no Funchal, em 2017, que matou 13 pessoas (Sábado, 2024), reforçam esse receio. A resposta mais segura é avaliar e acompanhar cada árvore, começando por perguntar quem pode ser atingido e se é possível reduzir essa exposição antes de mexer na árvore.


A segunda é a «limpeza» que vai além da lei. As faixas de gestão de combustível, as áreas que a lei obriga a limpar à volta de casas, aldeias e estradas para travar incêndios, exigem espaço entre copas e menos combustíveis finos, como matos, folhas secas e ramos finos. Não obrigam a cortar árvores grandes nem a retirar troncos grossos, que ardem devagar e pouco contribuem para a propagação do fogo (Larjavaara et al., 2023). Mesmo assim, a ideia de que um terreno «limpo» é mais seguro leva a remover árvores velhas, cavidades e madeira morta muito além do que a lei pede. Em Lousada, a limpeza destas faixas está entre as principais causas de abate.


A terceira é uma lei que não chega às árvores. A proteção legal existe, mas está dispersa por espécies, classificações e áreas. Uma árvore grande só tem proteção própria se for de uma espécie protegida, como o sobreiro e a azinheira, se estiver classificada como Arvoredo de Interesse Público ou se estiver numa área classificada. Um carvalho centenário num terreno privado pode, em regra, ser abatido sem autorização prévia, salvo regras do Plano Diretor Municipal ou de um regulamento municipal. Em 2019, o registo nacional de Arvoredo de Interesse Público tinha 470 árvores isoladas e 81 conjuntos (Lopes et al., 2019). A rede Gigantes Verdes já mapeou mais de 35.000 árvores de grande porte e, das 15.308 medidas desde janeiro de 2025, 1.387 cumprem os critérios de perímetro ou altura para serem classificadas. Ter tamanho para isso, porém, não as protege enquanto ninguém pedir a classificação.


Quatro números sobre a proteção legal das árvores em Portugal: 470 árvores classificadas de Interesse Público em 2019, mais de 1.500 dias sem o regime de coimas da Lei n.º 59/2021, 68% das pessoas não conhecem a lei e 72% dizem que as árvores trazem mais benefícios do que prejuízos.
A proteção legal das árvores grandes em quatro números.

A Lei n.º 59/2021 trouxe regras importantes, como a proibição da rolagem, o corte drástico de toda a copa, e a exigência de avaliação técnica antes de um abate. Mas aplica-se sobretudo ao arvoredo público e urbano. O regime de coimas, que devia estar regulamentado em 120 dias, continua por publicar mais de 1.500 dias depois, segundo a associação ambientalista ZERO (2026). E 68% das 927 pessoas ouvidas num inquérito nacional não conhecem a lei (Guedes et al., 2026). A maioria das Gigantes Verdes, em terrenos privados e rurais, fica de fora.


A maioria das pessoas está, no entanto, do lado das árvores. No mesmo inquérito, 72% dizem que trazem mais benefícios do que prejuízos e mais de 90% aceitam que parte das receitas municipais pague a sua gestão. O problema é o momento: o conflito surge quase sempre depois de a decisão estar tomada, quando já só resta protestar. O nosso trabalho é chegar antes.


Uma árvore conhecida tem mais hipóteses de ficar de pé


As Gigantes Verdes perdem-se, sobretudo, quando o seu valor não está presente no momento da decisão. O primeiro passo é saber onde estão, quanto medem, em que estado se encontram e que riscos enfrentam. Com essa informação, um proprietário, uma junta de freguesia ou um município podem procurar alternativas antes de o abate ser a única saída. Não defendemos mais proibições. Defendemos apoio técnico, reconhecimento para quem cuida e incentivos para quem mantém as árvores.


Não é uma ideia nova. No Reino Unido, o Ancient Tree Inventory reúne perto de 170.000 árvores antigas registadas e verificadas por voluntários, e os seus dados já são usados como prova em processos de licenciamento (Woodland Trust). Mesmo lá, só 20% destas árvores estão dentro de áreas legalmente protegidas (Universidade de Nottingham e Woodland Trust, 2022). As outras dependem de quem as conhece e acompanha.


É isso que fazemos. O projeto Gigantes Verdes®, da VERDE, segue um ciclo que se repete: envolver pessoas, conhecer as árvores e valorizá-las nas decisões. Formamos Embaixadores, voluntários que encontram, medem e registam as Gigantes Verdes da sua terra, e organizamos passeios que aproximam as comunidades das árvores que mapeiam; em 2025, 549 pessoas participaram em 30 passeios. Cada registo entra num mapa nacional, com medidas, espécie, estado de saúde, microhabitats e riscos, e, com revisitas e imagens de satélite, acompanhamos o que acontece a cada árvore ao longo do tempo. Com esses dados, trabalhamos com proprietários, municípios e outras entidades para que estas árvores entrem nas decisões, com reconhecimento de quem cuida, apoio técnico e alternativas ao abate. Em Lousada, o Carbono Biodiverso tinha em 2025 acordos com 6 proprietários, abrangendo 185 Gigantes Verdes. Três redes põem este ciclo em prática: a Rede de Embaixadores, cidadãos formados que registam e vigiam as árvores, medeiam com proprietários e representam o concelho; a Rede de Valorização, com grupos territoriais, laboratórios e grupos de trabalho que transformam o conhecimento em ação local; e a Rede de Parceiros, com municípios, empresas, escolas e outras organizações com compromissos públicos e verificáveis.


O ciclo dos Gigantes Verdes e as três redes que o põem em prática: Embaixadores, Valorização e Parceiros.

O ciclo dos Gigantes Verdes e as três redes que o põem em prática: Embaixadores, Valorização e Parceiros.


Desde janeiro de 2025, a rede de Embaixadores já mapeou mais de 35.000 Gigantes Verdes em 250 concelhos. Formámos 681 Embaixadores, que vivem em 125 concelhos e que só desde janeiro de 2026 registaram 16.399 árvores em 231 concelhos. A estes números junta-se o trabalho da equipa da VERDE em Lousada, com mais de 8.000 árvores registadas desde 2018. Ainda faltam muitas regiões: há 1.618 pessoas interessadas em ser Embaixadoras e 728 à espera de uma formação perto de casa, e para cada nova região precisamos de um parceiro local.


A rede a 4 de outubro de 2026: árvores mapeadas e Embaixadores por concelho. Há registos em quase todo o país, mas ainda faltam Embaixadores em muitas regiões.

A rede a 4 de outubro de 2026: árvores mapeadas e Embaixadores por concelho. Há registos em quase todo o país, mas ainda faltam Embaixadores em muitas regiões.


Participar também muda as pessoas. No fim do projeto, os Embaixadores sabiam mais sobre a importância ecológica das árvores e a biodiversidade do concelho e estavam mais envolvidos em ações de conservação e na comunidade: mudanças de 9% a 12% entre o início da formação e o fim do projeto, todas estatisticamente significativas (121 respostas antes e depois). Deram ao projeto uma nota de 4,8 em 5 e um índice de recomendação (NPS) de 86. Entre quem participou nos passeios, 79% ficou a conhecer melhor a biodiversidade local e 59% quer tornar-se Embaixador.


Nos Embaixadores, as mudanças entre o início da formação e o fim do projeto foram de 9% a 12%, todas estatisticamente significativas (121 respostas antes e depois).
Nos Embaixadores, as mudanças entre o início da formação e o fim do projeto foram de 9% a 12%, todas estatisticamente significativas (121 respostas antes e depois).

Perguntas frequentes

Plantar árvores compensa o abate de uma árvore grande?

No presente, não. Plantar é necessário para garantir as árvores grandes do futuro, mas uma árvore nova leva mais de um século a repor a sombra, o carbono, a água retida e o habitat de uma árvore adulta, e só se sobreviver. Em Lisboa, 13 das 29 árvores plantadas na Avenida Santos Dumont morreram (Time Out Lisboa).

Entre 40 e 100 anos, 60 em média, consoante a espécie e o local. O perímetro do tronco cresce 1,5 a 3,8 cm por ano e uma Gigante Verde começa nos 150 cm. Para chegar aos 300 cm, precisa de 80 a 200 anos. Mas chegar ao tamanho não é repor uma árvore abatida: a árvore plantada no seu lugar leva mais de um século a igualar o carbono que esta retirava por ano e a água que retinha, e mais de 200 anos a igualar o carbono que guardava.

É uma árvore com 150 cm ou mais de perímetro do tronco, medido a 1,30 m do solo, o que dá perto de 48 cm de diâmetro. Na prática, é uma árvore que uma pessoa adulta não consegue abraçar. Pode ser de qualquer espécie e estar em qualquer lugar.

Na grande maioria dos casos, não. O risco de queda é baixo e gere-se com avaliação técnica: podar, reduzir a exposição ou monitorizar são muitas vezes alternativas ao abate. Nos inventários da VERDE, mais de 83% das árvores avaliadas em Viana do Castelo e Gondomar não precisavam de qualquer intervenção.

Depende. Só tem proteção própria se for de uma espécie protegida, como o sobreiro, a azinheira ou o azevinho espontâneo, se estiver classificada como Arvoredo de Interesse Público ou se estiver numa área classificada. O PDM ou um regulamento municipal podem acrescentar regras. Se conheces uma árvore com dimensão notável, podes propor a sua classificação ao ICNF.

Tornando-te Embaixador ou Embaixadora dos Gigantes Verdes. Depois da formação, registas as árvores numa aplicação, com medidas, fotografias e observações. Inscreve-te mesmo que ainda não haja formação perto de ti: é assim que sabemos onde levar o projeto a seguir


Ajuda-nos a manter as Gigantes Verdes de pé


Queremos mapear todas as árvores grandes do país e não o conseguimos fazer sozinhos. Há quatro formas de ajudar.


Quatro formas de ajudar os Gigantes Verdes.
Quatro formas de ajudar os Gigantes Verdes.

  1. Torna-te Embaixador ou Embaixadora. Inscreve-te já, mesmo que ainda não exista uma formação agendada perto de ti; é assim que sabemos onde levar o projeto a seguir. Quero ser Embaixador/a

  2. Traz o projeto para a tua região. Para chegar a uma nova região precisamos de uma organização local parceira, seja um município, uma junta de freguesia, uma associação, uma escola, uma universidade, uma empresa ou uma fundação, que ajude a financiar o projeto, receba as formações e abra portas no território. Escreve-nos para geral@verde-associacao.pt.

  3. Apoia com um donativo. Cada donativo ajuda-nos a formar mais Embaixadores, a acompanhar mais árvores e a chegar a novos territórios. Fazer um donativo

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És de um município, de uma empresa ou de outra organização? A VERDE faz inventários e avaliação de arvoredo, com o estado e o risco de cada árvore, e cria projetos de valorização como o Carbono Biodiverso, que faz acordos com proprietários para manter as suas Gigantes Verdes. Fala connosco em geral@verde-associacao.pt.


Se conheces uma árvore que não consegues abraçar, pode ser uma Gigante Verde. Ajuda-nos a encontrá-la antes que seja tarde. Uma árvore plantada hoje leva 40 a 100 anos a tornar-se Gigante Verde, mais de 120 a ter cavidades para a fauna e mais de 200 a guardar o carbono da abatida. Uma árvore que se perde pode nunca realmente ser substituída.


Fontes

  • Base de dados Gigantes Verdes (VERDE), dados a 4 de outubro de 2026.

  • VERDE (2023). Documento de conceção do projeto (PDD) Carbono Biodiverso. VERDE (2026). Relatório Final Gigantes Verdes 2025. Inventários de arvoredo urbano da VERDE (2024 a 2026), com modelação i-Tree. Inventários de arvoredo de nove municípios com dados abertos, incluindo os abates de Cascais (2016 a 2025), e 6.º Inventário Florestal Nacional (IFN6).

  • Asbeck, T. et al. (2021). The use of tree-related microhabitats as forest biodiversity indicators and to guide integrated forest management. Current Forestry Reports, 7.

  • Brienen, R. J. W. et al. (2020). Forest carbon sink neutralized by pervasive growth-lifespan trade-offs. Nature Communications, 11, 4241.

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  • Time Out Lisboa (2026). Descrentes e desiludidos, cidadãos pedem consequências para abate de árvores em Lisboa. Ligação

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